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PROPÓSITO DOS DONS DO ESPIRITO SANTO (4)
PROPÓSITO DOS DONS DO ESPIRITO SANTO (4)

  1. N.3 Despenseiros dos dons.

 

  1. Vida na comunidade cristã é vida de serviço aos outros. Jesus foi o Servo de Deus, Aquele que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10.45). Na Sua vida, tal como nos mostram os Evangelhos, Ele demonstrou esse princípio, servindo ao Seu povo e aos Seus (como ilustrado em Jo 13.1-17). Servi uns aos outros é, assim, um chamado a sair de si mesmo e dos seus problemas, e se dedicar aos outros. É essa exteriorização que está o fundamento da ética cristã, como vida de serviço aos outros “enquanto outros” (ou seja, não uma extensão de mim próprio, ou “outros” a quem eu comando ou manipulo, e coloco dentro do meu esquema). A palavra grega é diakonuntes, de onde vem diaconia, serviço. Aqui, ela tem um significado abrangente, incluindo todo tipo de serviço que se pode prestar a outros (em palavra e ação).

Essa diaconia é possível porque todos receberam dons com os quais podem servir aos outros. Charisma é o termo usualmente empregado no N.T. para se referir aos chamados “dons espirituais”. São várias as definições e especificações deles (cf. 1 Co 12; Rm 12; Ef 4); trata-se de capacidades que Deus concede a todos os cristãos (associadas à habitação do Espírito Santo neles, 1 Co 12.7) para o serviço dentro do contexto da comunidade cristã. Podem se tratar de talentos naturais que recebem um novo impulso e uma nova orientação pela ação do Espírito, ou de capacitações originais, concedidas ao crente para que com elas sirva aos outros.

Esta questão dos dons às vezes tem causado polêmicas entre os cristãos. Nunca devemos perder de vista que são dados soberanamente pelo Espírito Santo, e que sua função é servir (nada mais que isso; usá-los para autopromoção é absolutamente contrário à sua natureza, sendo uma atitude exemplarmente repreendida em At 8.18-24).

Importante é também que cada um dos crentes recebeu um dom, o que, de saída, nivela a todos, e toma todos igualmente importantes uns para os outros. Cada um deve colocar o dom que tem a serviço de todos, porque, ao receberem dons, os cristãos se tomam despenseiros da graça de Deus. A charis (graça) é a fonte dos charisma (dons, carismas). Quem os recebe, recebe graça de Deus, e os recebe por causa da graça de Deus que lhes concedeu o Espírito Santo. Ter um dom espiritual, então, é ter um “depósito de graça”, que deve extravasar (porque graça é para ser doada). Despenseiros é oikonomoi, um termo técnico referente ao mordomo, o administrador da casa (lembrando que “casa” é a oikos do mundo da época, uma instituição social fundamental, a “comunidade doméstica” que incluía família e trabalhadores, bem como os hóspedes). O oikonomos era o encarregado de atender as necessidades de todos, administrando os bens nessa direção. E uma bela figura para o papel dos cristãos na igreja (e note-se que todos o são). Todos na “casa de Deus” têm necessidade de “graça”, e todos são chamados a suprir essa necessidade mutuamente. E não devemos espiritualizar em demasia a questão, pois essas necessidades muitas vezes serão bem materiais e rotineiras. E o chamado ainda é para ser bons despenseiros, estando implícito que se pode não ser um bom administrador da graça de Deus. Vem a propósito aqui a parábola do bom e do mau oikonomos (mordomo), de Lc 12.42-48 (especialmente pelo contexto escatológico).

A graça de Deus, por fim, é multiforme. Visualmente, isso seria como um cristal que reflete a luz em vários matizes e uma sempre nova e surpreendente combinação de cores e tons. Esse conceito é importante e tem sido desprezado na prática, muitas vezes, pelos cristãos. Está subentendido que a questão dos dons é sempre dinâmica. Não podemos deduzir uma lista fixa de dons a partir das passagens do N.T. que falam sobre o assunto, e mantê-los a todo custo como os únicos dons espirituais.

Deus dá os dons de modo multiforme, de acordo com as características locais e as necessidades do momento. Quando a situação muda, quando novos quadros se apresentam, Ele dará os dons de forma apropriada à nova realidade, sempre nos surpreendendo com o Seu agir. Multiforme também significa, para um mundo dividido como o nosso em culturas e características regionais bastante diferenciadas, que o Espírito leva em conta essa diversificação e trabalha dentro dela. Indispensável nas relações entre os cristãos (também a nível internacional) é a eliminação de todo resquício de prepotência e espírito de julgamento, e a disposição ao amor e ao serviço ao outro como outro (respeitando-o e valorizando-o naquilo em que é diferente de mim ou de nós).

I Ped 4.11. Na comunidade cristã, esta graça de Deus (ou a ausência dela) revela-se também na forma como a comunidade é organizada. Todos receberam dons; portanto, todos participam de uma forma ou outra. Não há maiores ou melhores entre os cristãos, todos receberam de Deus o que possuem, e isso nivela a todos de forma irrevogável. A distinção entre os dons é funcional, e não de classe (a sociedade cristã é sem classes, G1 3.28). 1 Pedro apresenta uma divisão muito simples entre os dons.

Basicamente há dois tipos de dons, que correspondem às duas formas básicas em que o evangelho de Cristo é Se alguém fala inclui, assim, todos os tipos de ministério a igreja que primam pela comunicação da graça de Deus em palavra (pregação missionária, pregação pastoral, ensino, etc.; hoje teríamos de incluir a palavra escrita, a literatura). A estes a exortação é que fale de acordo com os oráculos de Deus. A expressão grega é bem breve, e por isso está sujeita a várias leituras dá então, o sentido literal “se alguém fala, como palavra de Deus”. O sentido é bem preservada na nossa versão ARA, Quem falar na comunidade cristã, deve fazê-lo em acordo com o falar de Deus. O termo logia está se referindo, provavelmente, de forma bem ampla à palavra de Deus (nas Escrituras do A.T., na pregação de Jesus e dos apóstolos, nas mensagens dos profetas nas congregações cristãs). A Bíblia tem, na igreja cristã, justamente essa função de ser “cânon”, regra e critério para o falar de todos os cristãos. Deus falou, e o nosso falar deve se guiar pelo dEle. Naturalmente, o nosso falar terá suas formas próprias de expressão (um apego legalista à “linguagem de Canaã”, a linguagem das traduções da Bíblia em português, não seria muito bíblico). Dentro da nossa realidade e situação concreta, o nosso falar será nosso, sem dúvida, mas a partir da inspiração e do critério que representa o falar de Deus (por ele também deverá ser julgado o nosso falar). Isto se aplica à pregação nas igrejas, aos estudos bíblicos comunitários e em grupos, à pregação evangelística também ao labor teológico dos que a isso são chamados dentro da igreja, pois teologia é pensar e expressar o falar de Deus para dentro de uma nova geração, dentro de um novo contexto sócio-cultural e político, dentro de uma nova configuração psico-cultural representada por cada uma das partes da multiforme igreja de Deus; sendo assim a pregação e a teologia tarefas que perpetuamente se renovam, para poderem ser fiéis tanto ao falar de Deus como ao mundo em que este falar de Deus deve ser anunciado e vivido.

Se alguém serve dá aqui um sentido um pouco mais restrito de diakonein do que no versículo anterior (onde ele resumia todo o ministério cristão). Aqui, a palavra designa os dons considerados como propriamente “de serviço”, e que já na época podiam ser os mais diversos (exemplos teríamos em Rm 12.8, “o que contribui”, “o que preside”, “quem exerce misericórdia”). Pode se incluir aqui tudo que a comunidade necessitar para a sua organização, para o seu culto, todos aqueles pequenos itens técnicos que tantas vezes são simplesmente “pressupostos”, sem que se dê conta de que foram feitos por alguém (talvez com mais amor do que os serviços que mais aparecem), e sem que, talvez, sejam valorizados adequadamente. O versículo também não exclui (e não vemos razões por que excluir) o serviço prestado para fora da comunidade cristã, onde de muitas maneiras os cristãos podem dar eloquente testemunho de sua fé, simplesmente servindo aos outros (cf. 3.1, sobre o testemunho de mulheres aos maridos não-crentes). O fator determinante nesse serviço parece ser a “necessidade” concreta e imediata (cf. At 2.45, “à medida que alguém tinha necessidade”), especialmente as necessidades materiais (que é o assunto de que se fala no texto mencionado de Atos; várias vezes no N.T. diakonia refere-se a uma coleta em dinheiro que se levantava na igreja para as igrejas e os cristãos mais pobres cf. 2 Co 8.4,20; 9.1,12).

A mesma divisão simples do trabalho na comunidade cristã encontramos também em At 6.1-7, onde os serviços são divididos em “serviço da palavra” e “serviço das mesas” (a distribuição de pão entre ospobres da comunidade). E não há primazia de uns sobre outros; porquanto os que se dedicam à palavra são fundamentais para a igreja, ela também não subsistiria sem estes outros, que igualmente devem ser “cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3). Também as igrejas de hoje são chamadas a observar este duplo ministério cristão, dando o devido valor ao serviço da palavra, mas não permitindo que ele faça com que o serviço do amor seja negligenciado. Pelo contrário, um ministério da palavra que seja realmente “de acordo com os oráculos de Deus” vai saber privilegiar o serviço de amor como forma eloquente de presença cristã no mundo, tal como foi a presença serviçal do Senhor da igreja em meio aos pobres deste mundo. Principalmente em realidades sofridas como as do Brasil e do Terceiro Mundo em geral, a presença cristã dessa forma é fundamental.

Quem serve, faça-o na força que Deus supre. O termo ischyos (força) na maioria das vezes significa “força física”, evidenciando que os serviços são trabalhos que se realizam em prol dos outros, coisas talvez bem “mundanas” e do dia-a-dia, que os cristãos talvez não saibam valorizar direito como dons concedidos pelo Espírito de Deus. Aos cansados neste serviço, fica a lembrança de que Deus supre as forças necessárias para ele. Por isso, ele deve ser feito de tal modo que Deus seja glorificado através dele (cf. 2.12, “observando as vossas obras, glorifiquem a Deus; Mt 5.16); ou seja, é importante a humildade daquele que serve, de não atrair para si uma glória que é de Deus, doador da graça e das forças (de todas as dádivas que nos dão e sustentam a vida no corpo). Em todas as cousas se refere ao todo do ministério cristão: que tanto no serviço da palavra como no serviço de amor seja Deus glorificado. Como costumamos ver glória a Deus mais na pregação da palavra do que no serviço, não custa insistir em que todos os pequenos trabalhos de amor do cristão em prol dos outros glorificam a Deus, sendo dignos de que a eles nos dediquemos. Cl 3.17 oferece um bom comentário neste ponto. A glória vai a Deus por meio de Jesus Cristo, sendo importante que atentemos devidamente para essa mediação, tanto em termos do pensamento e das intenções da pessoa que serve, como em termos de que haja algum tipo de reconhecimento final de que Jesus Cristo está presente no serviço cristão (embora, quanto a isso, Mt 25.31-46). A quem 1 Pedro 4.11. pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculoí pode se referir tanto a Deus como a Jesus Cristo. Na verdade, nem parece conveniente tomá-los separadamente. A glória e o domínio que pertencem a Deus foram concedidos a Jesus Cristo na Sua ascensão (3.22; Ap 11.15), sendo uma glória que Ele já tinha antes mesmo de vir ao mundo (Jo 17.5).

Arriên é tanto uma expressão de reconhecimento (“realmente é assim”; cf. o “em verdade, em verdade” de Jesus, Jo 3.5,11, etc.) como de desejo piedoso (“assim seja”, não tanto de que “seja” na realidade de Deus, onde já é, mas de que seja reconhecido neste mundo como tal).

Ênio R. Mueller. I Pedro. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 238-243.

I Ped 4.10 Cada um, conforme recebeu um dom da graça – servi uns aos outros com ele como bons administradores da multiforme graça de Deus. Visto que os dons da graça (em grego: charisma) são dados pelo Espírito Santo, eles também são chamados de “dons do Espírito” (1Co 14.1). Este versículo presta uma importante contribuição para a pergunta a respeito do que são os carismas e como devem ser exercidos. O contexto demonstra que ser hospitaleiro, falar a palavra de Deus e exercer a diaconia são serviços dos dons da graça. O NT, portanto, não restringe o termo “dom da graça” aos dons particularmente notórios, p. ex., cura de enfermos (1Co 12.9) ou línguas (1Co 12.10; 14.13). Quem pratica de modo alegre e consciente a hospitalidade provavelmente obteve um carisma para isso. Porém, todo aquele que recebeu um dom para a edificação da igreja é um “carismático”. Pedro não escreve: “cada um, quando recebeu um dom da graça”, mas como (ou: “na proporção em que”) recebeu. Logo tem por certo que cada cristão participa da multiforme graça de Deus, que conseqüentemente também possui dons da graça. Não é possível produzi-los a partir de si mesmo, mas somente recebê-los. É verdade que podemos “buscá-los” (1Co 14.1), mas sempre continuarão sendo dádiva de Deus através do Espírito Santo. Servi uns aos outros com eles significa: os dons da graça foram dados para o serviço mútuo. Obviamente os dons não devem ser mal usados pelo seu detentor, p. ex. para a fama pessoal, pois então se tornam uma ameaça. Os dons da graça que nos foram confiados não devem nos tornar “carismáticos” deslumbrados, mas servidores humildes e singelos. Desse modo a dádiva se torna incumbência. Cada qual é servo do outro, essa é a ordem da igreja de Jesus. Como bons administradores da multiforme graça de Deus. A graça de Deus é sua dadivosa dedicação aos seus (cf. o comentário a 1Pe 1.13). Multiforme ela é na medida em que exerce uma obra diversificada na igreja e em cada cristão (cf., p. ex., 1Pe 5.10). Como graça multiforme ela também é suficiente para todas as múltiplas carências da igreja. Administradores é o nome dado pelo próprio Jesus a seus discípulos em várias parábolas (Lc 16.1; cf. Mt 25.14ss). Um administrador é caracterizado pelo fato de ter recebido dádivas em confiança para o serviço, que não são de sua propriedade. Cabe-lhe prestar contas sobre seu uso, razão pela qual tem de aproveitar tempo e oportunidade, enquanto possui os dons. Um laborioso empenho em prol de seu Senhor com os dons da graça que lhe foram confiados constitui o bom administrador.

I Ped 4.11 Quando alguém fala – em palavras de Deus; quando alguém serve – a partir da força que Deus oferece. Uma vez que aqui se trata do serviço mútuo (v. 10), com “falar” Pedro provavelmente tem em vista tanto o discurso na reunião da igreja como também a palavra pessoal de irmão para irmão. Quando alguém fala, que sejam palavras (ou: “enunciações”) de Deus. Aqui não se refere a palavras da Bíblia, mas a palavras que brotam de ouvir a Deus, embora não dissociadas da Sagrada Escritura. Trata-se do falar de Deus aqui e agora, de seu falar relativo a uma situação específica. Quando alguém fala – em palavras de Deus não devemos traduzir de forma atenuada: “como palavras de Deus”. No grego não apenas se usa uma comparação, mas designa-se a realidade. Aquele que fala deve enunciar palavras que de fato se originam de Deus. Quando isso acontece, será um falar eficaz – para honra de Deus e não para a honra pessoal – determinado pelo Espírito Santo e seus dons da graça (cf. também Cl 3.16): um “culto carismático”. A presente palavra de Pedro corresponde à de Paulo: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis. (em grego propheteuein)” (1Co 14.1). Importa para Pedro a fala compreensível, concedida por Deus e desmascarando o que está oculto no coração (1Co 14.24s). Em 2Co 2.17 Paulo assevera: “É da parte de Deus, na presença de Deus, em Cristo que falamos” [TEB]. É vontade do Senhor que isso aconteça na igreja de forma abundante e clara. Quando alguém serve – a partir da força que Deus oferece. O grego diakonein = “servir” formou o termo “diaconia”. Originalmente diakonein significa “servir à mesa” e se refere, no NT, ao auxílio prestado em situações de carência e necessidade física, mas também espiritual (cf. ThBl, artigo “Dienen”). O fato de Pedro citar, dentre a grande variedade de carismas, justamente o diakonein demonstra como ele é importante em uma igreja viva. Uma vida eclesial apropriada sempre se manifestará através da diaconia. Não estamos diante de uma exortação especial para diáconos e diaconisas, mas de uma convocação para toda a igreja. Pedro conta naturalmente com o fato de que na igreja existem muitos servidores. Todos os discípulos são instruídos a servir (Jo 13.15-17). É verdade que nos primórdios do NT já houve exercício do ministério do diácono e da diaconisa (At 6.3; Fp 1.1); a exortação de Pedro à igreja toda, no entanto, revela com nitidez e clareza que esses serviços organizados não devem tornar desnecessário o agir diaconal específico de todos os membros da igreja. A incumbência diaconal é tão grande que o “ministério” diaconal do indivíduo e o agir diaconal de todos os membros da igreja precisam completar um ao outro. Quando alguém serve – a partir da força (ou “vigor”) que Deus oferece. Na força que Deus oferece residem, teológica e historicamente, as raízes da diaconia. Por isso a diaconia verdadeira somente poderá ser exercida por alguém que vive diariamente da força que Deus oferece. A miséria com que o cristão se depara pode ser tão dura e desanimadora que não se pode enfrentá-la de outra forma que não pela força suprida por Deus. Também nesse ponto fica evidente: a diaconia somente pode ser realizada mediante oração e no poder de Deus.

É significativo como o presente trecho termina: para que em tudo Deus seja exaltado por meio de Jesus Cristo. Somos chamados a ser algo para o louvor da glória de Deus (Ef 1.12). É para isso que aponta toda a atuação do Filho (Mt 6.9s; Jo 17.4). É para isso que aponta também o Espírito Santo em nós, que ele convocou. Não existimos para nós mesmos. Quando nos transformamos no centro das atenções, erramos nosso alvo. Sempre estão em jogo Deus e sua honra. Toda a vida, também o amor fraternal, a hospitalidade e diaconia, têm em Deus seu fundamento e alvo: para que em tudo Deus seja exaltado (ou: honrado, glorificado) por meio de Jesus Cristo. Servindo ao irmão o cristão honra a Deus. Em tudo (ou: através de todos) Deus deve ser exaltado. O alvo da exortação apostólica é que cada um viva, em tudo que fizer, para a glória de Deus, engrandecendo assim o nome dele. Além disso, importa que Deus seja exaltado através de todos. Um cristão não pode fazer nada sem Jesus, nem mesmo prestar a Deus a honra que lhe é devida. O que ele fizer para a honra de Deus acontece por meio de Jesus Cristo. Conseqüentemente, também na glorificação de Deus a honra não cabe aos cristãos, mas a Jesus Cristo. Para ele é (ou: ele possui) a honra e o poder para os éons dos éons. Amém. O trecho encerra com uma exaltação, uma “doxologia” (de doxa = honra). Como nosso Deus é grande! Aqui Pedro diz enfaticamente: “Para ele é a honra e o poder”, não apenas “para ele seja” ou “a ele compete a honra”, como normalmente. Devemos estar cientes disso no sofrimento. Éon significa “era”. A Sagrada Escritura desconhece nosso conceito estático, onerado pela filosofia, de “eternidade” em repouso. A Bíblia fala de forma mais dinâmica de éons, referindo-se às diferentes eras marcadas pelo agir salvador de Deus. Quanto à expressão: para os éons dos éons, lemos, p. ex., no Comentário Esperança sobre Rm 16.27: “O futuro não é eternidade vazia, mas uma plenitude de novas eras, que hão de desenvolver cada vez mais e de forma mais profunda a exuberante riqueza de sua graça (Ef 2.7).”

Uwe Holmer. Comentário Esperança Cartas aos I Pedro. Editora Evangélica Esperança.

I Cor 4.1. Tendo apresentado a sua polêmica contra o espírito faccioso, Paulo agora passa a mostrar qual deve ser a atitude certa dos crentes para com os verdadeiros ministros do evangelho, e, em particular, para com ele mesmo, que era um apóstolo autêntico, que tinha apresentado muitas evidências sobre a validade do seu apostolado. Em Corinto havia detratores de Paulo que haviam convencido a alguns dos membros daquela igreja que ele não era verdadeiro apóstolo. O nono capítulo da presente epístola expõe a defesa de Paulo contra essa calúnia. No capítulo que ora iniciamos a comentar, porém, esse apóstolo mostra-nos que tais detratores, ao denegri-lo, tão-somente deixavam de mostrar o devido respeito pela dignidade de seu oficio, que lhe fora conferido pelo Senhor. Isso era apenas um outro resultado negativo do fato de se terem deixado encantar pelos líderes de diversas facções, os quais exaltavam aos homens e se gloriavam no homem. Os ministros autênticos da Palavra de Deus não podem estar sujeitos aos caprichos da comunidade religiosa, e contra esse abuso, Paulo agora fazia objeção firme.

A Fidelidade

  1. Essa deveria ser uma das características essenciais de todos os crentes professos (ver Efé. 1:1 e Apo. 17:14).
  2. A fidelidade se exibe no serviço prestado (ver Mat. 24:45), e na pregação da Palavra (ver II Cor. 2:17).
  3. Deveria ser tão geral que incluísse todas as coisas (ver I Tim. 3:11).
  4. Não pode haver período de férias no campo da fidelidade (ver Apo. 2:10).
  5. Ela redunda em uma espécie notável de bem-aventurança (ver Mat. 24:45,46).
  6. Consideremos o exemplo de Paulo (ver Atos 20:20,27). «...ministros...» Paulo substitui aqui o termo grego mais comum, «diakonos» pelo vocábulo grego «uperetes». Originalmente, essa palavra indicava aqueles que manuseavam a fileira de remos mais inferior de uma trirreme; em seguida veio a significar qualquer pessoa que serve subordinada a outra, um «servo», um «assistente», um «ajudante». O trecho de Luc. 1:2 aplica esse termo grego a qualquer tipo de serviço em que esteja envolvida a «Palavra de Deus». Em tempos posteriores, esse vocábulo passou a ser usado em um sentido técnico, no vocabulário eclesiástico, a fim de denotar os «subdiáconos». Mediante o uso dessa palavra, pois, o apóstolo dos gentios assume sua correta posição como servo de Jesus Cristo. Ele não exalta a si mesmo, como se exigisse ser respeitado devido aos seus próprios méritos; não obstante, não é coisa de pouca monta ser um homem um verdadeiro ministro do grande Rei, o Senhor Jesus Cristo. Tais ministros requerem um respeito verdadeiro da parte daqueles para quem ministram.

«...despenseiros...» é tradução do vocábulo grego «oikonomos» (derivado de «oikos», casa, e «nemo», distribuir, determinar), que indica alguém que tinha por função controlar uma casa, determinando a cada qual, os seus deveres específicos. Eram os despenseiros quem controlavam o dispêndio de dinheiro, a compra dos suprimentos e a distribuição dos bens, dentro da casa. Essa palavra também indicava alguém que geria os negócios externos de uma casa; razão também pela qual era aplicada aos oficiais administradores do governo, que manuseavam os fundos públicos e conduziam os negócios em geral do império. Na sociedade antiga, o «gerente» de uma casa, em relação ao seu senhor, era apenas um escravo.

Por essa razão é que era frequente que escravos de alguma habilidade fossem selecionados para essa tarefa. Perante os demais escravos, entretanto, tal homem possuía elevada posição aos olhos dos quais ele era o «superintendente» ou «chefe» de todas as operações. (Ver Luc.. 12:42 e Mat. 20:8).

No terreno das realidades espirituais, Deus ou Jesus Cristo é quem aparece como o grande Senhor (ver I Cor. 3:23), e a casa cristã é a igreja (ver I Tim. 3:15). Os «despenseiros» ou superintendentes estavam encarregados da distribuição dos «mistérios de De'is». Em termos gerais, esses mistérios são as verdades bíblicas que os pregaoores deveriam ensinar. Sendo assim comissionados para ensinarem as verdades divinas, exigiam o respeito de todos os membros da comunidade cristã. Entre o Senhor e os despenseiros permanecia ainda o Filho (ver I Cor. 15:25 e Heb. 3:6), e todos os «ajudantes» são seus ministros e despenseiros. E esses despenseiros são «distribuidores da graça divina», da mensagem da verdade.

«...mistérios...» (Ver as notas expositivas sobre I Cor. 2:7, acerca desse tema; e então sobre Rom. 11:25, onde se expõe o sumário de todos os «mistérios do N.T.»). Paulo alude aqui aos cultos misteriosos, ou, pelo menos, aos primórdios de tal atividade na igreja cristã, introduzida principalmente através do gnosticismo. Os gnósticos contavam com os seus mistérios, suas verdades supostamente divinas mas ocultas, e das quais somente uma elite, os iniciados, podiam saber e entender. (Ver Rom. 11:25 e as notas expositivas ali existentes sobre os «cultos misteriosos». Ver Col. 2:18, acerca do «gnosticismo»). Em contraste com essas supostas «verdades ocultas», os mistérios do N.T. são «segredos franqueados», coisas reveladas em Cristo, por intermédio do seu Santo Espirito, e através da instrumentalidade dos servos de Cristo, principalmente dos apóstolos, cujas revelações constituem o tema mesmo do novo pacto.

A sabedoria humana, que o apóstolo dos gentios vinha atacando coerentemente, desde, o princípio desta epístola, conta com seus supostos mistérios profundos.

«...considerem...» Essa palavra indica uma «estimativa razoável», extraída de princípios aprovados de julgamento espiritual. (Comparar com os trechos de Rom. 6:11 e 12:1).

«Paulo tinha um vivido senso da dignidade de sua posição como despenseiro de Deus, a qual lhe fora dada pelo Senhor (ver Col. 1:25 e Efé. 1:10). O ministério da Palavra é muito mais do que uma profissão ou negócio. É a própria chamada de Deus para a gerência». (Robertson, in loc.).

CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 57.

A Missão do Apóstolo (4.1-5)

A missão de Paulo e de todos os que foram chamados para pregar o evangelho foi construída sobre quatro elementos: serviço, mordomia, fidelidade e sensibilidade aos juízos de Deus. Embora todos estes elementos estejam relacionados, há diferença entre eles.

  1. a) Serviço (4.1). Paulo e Apoio não deveriam ser considerados como líderes de evangelhos diferentes. Ambos eram ministros de Cristo. A palavra ministros (hyperetas) significa “servos”. Originalmente o termo se referia a remadores que ajudavam a impulsionar barcos através das águas do mar. A palavra sugere a labuta e o trabalho contínuo envolvido na obra do evangelho.
  2. b) Mordomia (4.1). Paulo e Apoio também eram despenseiros dos mistérios de Deus. Um despenseiro (oikonomos) era literalmente o “administrador de uma casa”. Freqüentemente ele era um escravo respeitado e eficiente a quem o negociante ou o dono da terra havia entregue a administração da propriedade. Como tal, o despenseiro tinha autoridade sobre os ajudantes ou empregados. Ele atribuía trabalho e distribuía mantimentos. Ele era o superintendente sobre a operação de todo o empreendimento. Contudo, ele estava sempre ciente de que era um escravo, e estava sob a obrigação de iniciar e executar a vontade do proprietário.

O termo mistérios se refere a todo o plano da salvação (cf. o comentário sobre 2.7). Paulo e Apoio não possuíam qualquer conhecimento secreto escondido de todos, exceto de alguns escolhidos. Eles eram mestres e pregadores da verdade revelada sobre a salvação em Jesus Cristo e através dele.

Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 267.

Paulo, apesar das condições que sabia existirem em Corinto, precisa irromper num hino de agradecimento. A ferida causada pelos corintianos ingratos foi grande, mas sua ingratidão não acabou com a gratidão de Paulo.”4) O modo como Paulo lida com o caso é, incidentalmente, um belo exemplo da fé do amor em todas as coisas. Pois esteve certo que a violação que se achava na congregação de Corinto não representava o que eram as suas personalidades espirituais, e que sua admoestação de fato seria aceita. Foi por isso que ele se empenhou em sempre dar graças a Deus, bendizendo e louvando Sua misericórdia, a respeito dos cristãos de Corinto, por causa da graça de Deus que em Cristo Jesus lhes fora dada. Este foi o motivo do seu contínuo dar graças. Eles, apesar de suas muitas fraquezas, ainda eram cristãos. De Deus eles haviam recebido a graça, e ainda a tinham, como um dom gracioso em Cristo Jesus, um dom que fora tornado possível por meio dos méritos de Cristo em seu ofício vicário. “Este também é um tesouro indescritível do cristão, que ele tem como certa, antes de tudo, a Palavra de Deus que é a palavra da graça e conforto eterno, batismo, o sacramento, a compreensão dos dez mandamentos e da fé, e, além disso, também um refúgio e uma certeza certa que Ele, quando em angústia o invocamos, nos ouvirá.”)

Agora o apóstolo mostra a maneira em que a graça de Deus concedeu provas práticas de seu poder vivificante nos corações dos cristãos de Corinto: Que Nele vós fostes enriquecidos, abundantemente abençoados em todos os pontos, a saber, em toda palavra e em todo o conhecimento, que significa, em toda doutrina e em todo o entendimento. “É isto o que Paulo chama ‘ser rico’, primeiro ‘em toda doutrina ou saber,’ que é a sublime compreensão espiritual da palavra que diz respeito à vida eterna, isto é, o conforto da fé em Cristo; também sobre a invocação e oração a Ele. E ‘em todo o conhecimento,’ isto é, conhecimento e distinção corretos de toda vida física externa e da existência sobre a terra.”6) Haviam chegado a conhecer o caminho da vida eterna, haviam sido enchidos com as riquezas da certeza da graça de Deus, e estavam ricos em todo o conhecimento, haviam alcançado um discernimento da verdade da doutrina de Deus em sua aplicação à vida diária, às suas necessidades em todas as condições da vida. E a abundância deste conhecimento e desta compreensão que havia neles foi em proporção da sua aceitação da verdade do evangelho: Assim como, ou, viso que, o testemunho de Cristo foi em vós confirmado. O testemunho de Cristo, as boas novas de Deus sobre Seu Filho, “a verdade firmemente estabelecida da mensagem” da salvação, lhes fora tornada certa. Haviam-se fixado, haviam permanecido firmes na verdade, seus corações haviam sido fundamentados, Hb. 13. 9, estavam certos de sua realidade.

Assim como então, também hoje este estabelecimento no testemunho de Cristo é algo que sua graça realiza, um objetivo de oração, e uma causa para gratidão.

Outro resultado deste dom da graça e do estabelecimento sólido do evangelho: Assim que já não sois mais deficientes em qualquer dom. Os cristãos de Corinto não tinham falta, não sentiam a deficiência, de qualquer dom da graça de que precisassem para a edificação, ou por meio do qual eram qualificados para o trabalho do Senhor por meio de instrução, de exortação, de governo, de serviço. Nenhuma congregação dos dias antigos excedeu a de Corinto na variedade de suas dotações e na satisfação que sentiram, cap. 12. 7-11. os cristãos desta cidade gentia estiveram de posse de tão ricas dotações, enquanto ansiosamente esperavam a vinda, a final revelação, do Senhor Jesus Cristo. Receberam a rica dotação dos dons da graça e os usaram em benefício da obra de Cristo, mas, ao mesmo tempo, seus corações voltavam em ansiosa antecipação de sua final redenção, Fp. 3. 20; Tt. 2. 13; 2.Pe. 3. 12. É assim que o coração de cada cristão está cheio de saudade pelas mansões lá do alto. Mas é exatamente este mesmo fato que o leva a trabalhar em favor do Mestre enquanto é dia, ou seja, usar todos os seus dons e suas habilidades em favor de seu Senhor. Enquanto isto ele sabe que Cristo o Senhor nos confirmará, estabelecerá, até o fim, ao fim do mundo, caso este estiver tão próximo, ou ao fim de nossa vida, caso o Senhor nos chamar para casa antes de Seu último grande dia. Mas, não importando quando o dia há de vir, ele nos estabelecerá para que sejamos inculpáveis, para que não sejamos mais culpados e sob a condenação, Rm. 8. 33, 34. Esta irrepreensibilidade dos cristãos não consiste em quaisquer méritos da parte deles, mas no fato que a justiça de Cristo lhes é imputada pela fé, Fp. 3. 9. A razão para a aceitação de cada cristão por Deus e, desta forma, só colocada no lado de Deus e de Cristo, e é feita a promessa, com uma certeza absolutamente certa, que ela será a base duma feliz esperança, Jo. 10. 27, 28.

O motivo final e mais profundo para Paulo ter esta esperança pela salvação dos cristãos de Corinto é a fidelidade de Deus: Deus é fiel, por quem sois escolhidos à comunhão de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Nossa esperança da vida eterna se baseia sobre a promessa de Deus, que não pode mentir, Tt. 1. 2. A nossa eleição à comunhão de Seu Filho, Jesus Cristo, ou seja, o fato que por Ele fomos trazidos à fé e temos assim sido unidos com Ele nesta maravilhosa união espiritual de membros de seu corpo, é o penhor que ele nos deu que nossa salvação está firme em suas mãos. Cristo não é ninguém menos do que o Primogênito dentre muitos irmãos, e nós somos com Ele co-herdeiros das bênçãos da vida eterna. Contudo, visto que ele é também o nosso exaltado Senhor, nossa comunhão com Ele nos investe de Sua atual grandeza e certifica a manifestação de sua glória em nós. Desta forma a fé do cristão não alguma esperança vaga e incerta, mas se baseia sobre o fato que recebeu a garantia da final consumação de suas esperanças. “Aquilo que Cristo começou em nós, e o que Ele já nos deu , nisso Ele certamente vos conservará até o fim e por toda a eternidade, caso vós não cairdes voluntariamente dela e a lançais de vós; pois Sua palavra e promessa, que vos foram dados, e Sua obra, que Ele realiza em vós, não é mutável como o são a palavra e a obra das pessoas, mas firme, certa e uma verdade divinamente inamovível. Então, visto que tendes uma tal vocação divina, consolai-vos nela e apegai-vos firmemente nela.”) “Testifica outrossim a Santa Escritura que Deus, o qual nos chamou, é tão fiel que, quando ‘começou boa obra em nós’, há de conservá-la também até ao fim e completá-la, se nós mesmos não nos desviarmos deles, mas guardarmos firme até o fim a obra principiada, para o que ele prometeu sua graça.”)

KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento Editora Concordia Publishing House.

Ef 2.19. Por meio da conversão, os efésios têm o mesmo acesso a Deus que os judeus, e pelo mesmo Espírito, o apóstolo diz: “Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros” (v. 19). Isso ele menciona em contraste com o que tinha observado deles no seu paganismo: eles já não eram mais separados da comunidade de Israel. Os judeus estavam acostumados a considerar todas as outras nações da terra estrangeiros para Deus, mas agora eles também eram “...concidadãos dos Santos e da família de Deus”, isto é, membros da igreja de Cristo, e tendo direito a todos os privilégios dela. Observe aqui: A igreja é comparada a uma cidade, e cada pecador convertido está livre do seu pecado. Ela também é comparada a uma casa, e cada pecador convertido faz parte dela, é membro da família, servo e filho na casa de Deus.

HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 585.

Ef 2.19 O reconquistado acesso a Deus para os que antes estavam longe acarreta uma consequência significativa: “Logo já não sois estrangeiros e peregrinos”.

Em Gn 23.4 (cf. também Gn 24.37; Sl 39.12) Abraão se classifica como “forasteiro e ocupante” em Canaã, a terra da promessa. Essa formulação é interpretada em Hb 11.13 com vistas à trajetória da fé: os patriarcas estavam a caminho da celestial terra da promessa (Cf. Hb 11.14ss). Do mesmo modo os cristãos são “estrangeiros e peregrinos” (1Pe 1.1; 2.11), porque não têm neste mundo “cidade permanente, porém buscam a que há de vir” (Hb 13.14). Por essa razão seu modo de vida também precisa corresponder a essa situação básica: não devem prender-se de forma definitiva a coisas desta vida, mas “ter como se não tivessem” (1Co 7.29ss).

A locução dupla “estrangeiros e peregrinos” adquire mais um sentido em relação à posição de gentios e judeus cristãos. Enquanto os gentios estavam “naquele tempo… alienados da comunidade da promessa” (Ef 2.12), porque eram mantidos afastados do Deus de Israel pela cerca da lei, essa situação foi eliminada e radicalmente alterada em Cristo: são agora “concidadãos dos santos e familiares de Deus”.

Isso não significa que os gentios cristãos sejam incorporados à “cidadania de Israel” (em grego: politeia; Ef 2.12) como “concidadãos” (em grego: sympolitai). A “comunidade” da igreja gerada em Cristo é uma criação completamente nova, na qual são acolhidos adeptos tanto judeus como gentios. Por um lado, é totalmente incorreto pensar que a atuação de Cristo praticamente suspendeu a história de Deus com seu povo, tornando-a nula, ou seja, que a igreja substituiu Israel sem compensação. Para qualquer pensamento nessa direção vale a admoestadora recordação de Paulo: “sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz, a ti”, o ramo de oliveira outrora brava, mas agora enxertada (Rm 11.17s). Por outro lado, essa situação na história da salvação de Israel não propicia aos membros do povo da aliança veterotestamentária uma posição especial, na qual pudessem trilhar um caminho singular à parte da fé em Jesus Cristo. Os “santos”, cujos “concidadãos” os destinatários da carta se tornaram, não são formados nem por judeus nem por judeus cristãos, mas por todos os crentes que já integram a igreja de Jesus Cristo.

Como essa cidade (grego: polis) de Deus é celestial (cf. Hb 12.22), o direito de cidadania (grego: politeuma) também está no céu (Fp 3.20). É a herança (Ef 1.14,18), da qual os cristãos já participam em Jesus Cristo (Ef 2.6).

Com a ilustração da cidade (“concidadãos”) está associada a metáfora da casa: “familiares de Deus”. A igreja é “casa espiritual” (1Pe 2.5; cf. 4.17), à qual pertencem “familiares da fé” (Gl 6.10).

Eberhard Hahn. Comentário Esperança Efésios. Editora Evangélica Esperança.

Ef 4.19. O estudo da unidade de todos os cristãos “em um Espírito” receberá ênfase e será desenvolvido no capítulo quatro, mas aqui o apóstolo volta-se especificamente para os gentios a fim de prosseguir tratando da mudança operada em sua situação, Antes eles estavam “separados da comunidade de Israel” (v. 12). Em relação ao povo da aliança de Deus, eram estrangeiros e peregrinos (xenoi e paroikoi), isto é, pessoas que ainda que vivessem no mesmo país, tenham contudo os mais superficiais direitos de cidadania. Essa era sua situação anterior, mas de agora em diante já não o é. No dizer do apóstolo, agora são concidadãos dos santos. Ele deve ter pensado nos santos do Antigo Testamento, ou nos membros da Igreja Cristã, aos quais a palavra se aplica (veja comentário sobre 1:1); provavelmente pensou naqueles que, em todos os sentidos, podiam ser chamados povo de Deus, e assim disse aos gentios que eles agora estavam incluídos entre os santos, e em igualdade de condições.

Cidadania do povo de Deus, eis um modo expressivo de estabelecer a verdadeira posição que judeus e gentios igualmente partilhavam com Deus e entre si. Mas essa ilustração conduz a uma outra verdade mais profunda, qual seja a intimidade maior que os cristãos têm com Deus, e também uns com os outros. Judeus e gentios, homens de quaisquer raças, cores ou posições, estão juntos na família de Deus, na mesma família. Gálatas 4:10 usa a mesma palavra oikeioi para falar da “família da fé”. Embora tal palavra não seja perfeita para expressar completamente a verdade de serem todos “filhos de Deus, mediante a fé em Cristo Jesus” (G1 3:26; e veja também o comentário sobre 1:5), ainda assim o pensamento se refere mais a pessoas da casa, do que ao edifício em si (Hb 3:2, 5; 1 Pe 4:17).

Francis Foulkes. Efésios. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 72-73.ELABORADO: Pb Alessandro Silva. / WWW.MAURICIOBERWALD.COMUNIDADES.NET